Fim.

Anjo, acalma esse teu coração. As coisas simplesmente são, assim, quando têm que ser. Deixa de sofrer e permita-se chorar até passar. Anjo, só Deus sabe o tanto de amor que ainda tinha aí dentro de você. Mas isso tudo é pra outro alguém, é até egoísmo amar tanto assim uma só pessoa. Segue em frente e olha como tudo continua lindo. Tá faltando algo sim, eu sei, mas o encanto da vida permanece e se você não enxergá-lo, ele também cai por terra. E convenhamos, a terra já te levou gente demais da vida, não deixa teu sorriso ser soterrado também. Vem cá, anjo, que da tua dor eu compartilho e te ensino a lidar, mas saiba que eu tenho muito mais felicidade pra compartilhar e quem tem que recebê-la é você. Parte da sua euforia foi pro céu, mas o que sobra se espalhou por todo o resto da tua vida.

Amar-te até a morte – Antônio

Dispensa comentários. O texto postado originalmente aqui.

“Eu já vi o mundo desabar tantas vezes que, às vezes, parece que o mundo foi feito mesmo para gente se desfazer. Ainda não havia aquela vontade vital de ser imortal porque a morte naquele momento parecia um confronto distante entre o que eu sinto agora – nesse instante – e o que você sente quando quer reviver o que já fomos antes.
(sem ressentimentos)

Mas o amor também morre, meu amor; e a morte também ama, minha morte. E é no elo desse duelo desesperado que a gente decide se quer continuar fraco no amor ou se entregar forte até a morte.

Tanto faz!
Amar ou morrer é um pouco igual. É poder ser sincero e aceitar que nunca seremos para sempre.

Tanto jaz!
Morrer ou amar tem um quê de banal. É querer ser inteiro e se despedaçar meio a meio como nunca.

Eu sei, é difícil, nunca foi fácil discernir o que é de verdade do que é de sentir…

É que eu já vi a morte desabar tantas vezes que, às vezes, amar não me parece tão ruim assim. É que eu já vi o amor desabar tantas vezes que, às vezes, morrer não me padece tão ruim assim.

Acredito ter visto, no meio de tantos escombros, meus ombros, seus olhos, meus poemas, suas coxas, meus problemas, seus cílios, nossos filhos (que filhos?), nossas contas, nossos contos e os ossos, teimosos!, das nossas alegrias. Ouça: a dobra do seu sorriso ainda me ri: “desdobre-se, meu amor, desdobre-se na morte para me reconstruir longe daqui, perto de ti, em mim”.”

– 06/12/2013

A rotina não é tão cruel quanto parece, especialmente quando sair do estado de torpor que ela causa significa sair um pouco de si. Cada dia é uma nova descoberta, afinal. Enquanto escrevia a data de hoje num e-mail de trabalho – da mesma forma que faço todos os dias – parei e prestei atenção neste 06 de dezembro de 2013. Não porque o ano está acabando, passou rápido e coisas do tipo. Mas porque em dois dias eu estaria comemorando o 66º aniversário da minha avó. O curioso é que eu tenho uma memória fascinante pra tudo o que envolve datas, mas em três anos eu nunca sequer lembrei que esse dia se aproximava. Sempre me recordava depois, quando já tinha passado, e né…passou, bola pra frente. Na minha concepção de tempos justos, hoje eu estaria em algum lugar, em busca de algum presente ou organizando alguma surpresa. Mas hoje, enquanto digitava “06/12/2013” no assunto do e-mail, só deu tempo de correr do escritório para o banheiro e chorar por quanto tempo eu conseguisse. Ainda não parei.

***

Eu não gosto mais de Natal, não consigo passar o ano novo com a minha família e não posso ver os avós de alguém que já me bate uma tristeza. E é porque eu sou fraca. Fraca, sentimental e exagerada. E sou igual aos meus avós, alguém que chora na frente dos outros, mas não quer incomodar com bobagem. Eu herdei – entre tantas coisas – fraqueza, e se é isso que eu posso carregar deles, o faço com orgulho.

***

Um dia desses eu e meu namorado tínhamos uma conversa saudosa no carro, indo pra faculdade, e ele me disse “eu queria muito ter conhecido sua vó”. Foi a coisa mais triste que já ouvi dele.

***

A saudade sim é cruel. Não a rotina, a fraqueza, a tristeza. A saudade que não dá pra matar é de longe a coisa que mais me machuca. E mesmo sabendo que tudo acontece quando deve, que a fé está acima de qualquer coisa e que o tempo cura, eu ainda não me conformei. Meu avô não estava na minha formatura da oitava série, no meu aniversário de quinze anos, nem foi me levar pra prestar o vestibular da faculdade. Minha avó não cuidou de mim quando fui operada, não me viu conseguir o primeiro emprego e também nunca conhecerá o meu namorado. Eu não vou comemorar o 66º aniversário dela no domingo, ele não vai estar em outra formatura minha e muitas outras coisas não serão. Só a saudade ainda é, e nada me faz pensar em algo mais cruel que isso.

***

Quando pequena minha avó costumava dizer que ela não mentia pra mim e que se eu não acreditasse nela, em quem acreditaria, afinal? Uns bons anos depois, já numa cama de hospital, ela disse que não viveria por muito tempo. Eu chorei, óbvio. Mas ela disse que ficaria tudo bem, depois de bastante tempo e de bastante vida vivida, eu ficaria bem. Se eu não acreditar nela, afinal…

Eu não te quero mais

Não te quis naquela manhã em que acordei e pensei no meu atraso, no meu sono, na roupa que escolheria para o trabalho, no café da manhã mais rápido que eu poderia preparar, no projeto da faculdade, nos presentes de Natal da minha família e, só então, em você.

Nem naquela tarde depois do almoço que já passava da hora de desejar bom dia, que nossa música tocando no alto-falante do supermercado não fazia sentido, que sua foto no celular era apenas parte da rotina de ter que encará-la vez em quando.

Não te quis naquela noite que parecia finita, sem você. Naquele dia sem planos pra mais tarde, pro fim de semana e pro futuro.

Então eu acordei e te vi. Te achei por perto e me encontrei aconchegada em abraços e carinhos sonolentos. Soube que aquilo era maior que qualquer sonho ruim. Soube que, por ora, manhãs, tardes e noites eram sonhos por si só.

Porventura, ventura

Eles habitaram o mesmo espaço por muito tempo, é verdade. Davam as caras e os dentes constantemente, mas nem sempre na mesma ocasião. Sorte ou outra, se provocavam. Azar ou não, levaram tempo até se descobrirem. Alguns discretos, outros por tabela. Uns tímidos o suficiente pra ficarem escondidos no canto da boca, mas a maioria era escandalosamente aparecida. Estes últimos, os melhores. O tempo rei provou que juntos, os dois se mostram sem nem mesmo aparecer. Transbordam pelos olhos, gestos, respiração, toques, tudo. Mesmo no maior dos silêncios, eles fazem mais barulho que um milhão de palavras gritadas. Abrem o coração mesmo com a boca fechada.

Desde que nossos sorrisos se cruzaram – de fato – pela primeira vez, o silêncio ganhou um sentido completamente diferente.