Rotina de uma vida

Tudo acontece exatamente igual aos outros casos e nada indica que o padrão possa mudar. Pra provar que já me importei um dia, vou traduzir todo o sentimento em palavras…

Lembro-me até hoje a primeira vez que te vi e da facilidade com que todas as minhas crenças contra o “amor à primeira vista” foram se esvaindo. Lembro-me de treinar as palavras que eu usaria para descrevê-lo aos meus amigos e dizer o quão encantador você me pareceu.

Incrível! Você era simplesmente incrível! Mas qualquer pessoa pode ser superestimada antes que permita que a conheçam.

E era exatamente isso o que eu tinha em mente: te conhecer. Não podia parecer afobada demais, mas não podia perder muito tempo e então, resolvi que faria isso da forma mais simples possível: eu só precisava ser notada. E não demorou muito tempo… Quando eu menos esperava, você dirigiu um comentário engraçadinho e eu, sem reação, ri envergonhada. Aquelas risadas que nos filmes parecem naturais e soam bonito, na minha versão, foi ridícula!

Então fomos evoluindo: de um comentário aleatório, passamos pra um aceno (que pra você era só um aceno, mas pra mim, era o começo…). Do aceno para o “oi”. Do “oi” para o “oi, tudo bem?” com direito a abraço e beijinho na bochecha… E a história toda realmente começou!
Uma amizade foi surgindo e é daí que eu tiro minha enorme aversão a relacionamentos com amigos: não foi uma vez, nem duas, mas sempre que um dos lados sai machucado, a amizade não volta ao normal. Que mania é essa de querer arriscar tanto?

Como eu não fui abençoada com o dom de saber disfarçar, já é possível presumir o andamento das coisas: nossa relação nasceu, cresceu, foi evoluindo vagarosamente e (desculpe-me por jogar toda a culpa pra um lado só, mas…) você estragou tudo!

Agora vale ressaltar todos os pontos fracos, não vale? Vale! Durante um bom tempo, nós pensamos só nas coisas boas e jamais levamos em conta que a ilusão tá aí, pronta pra bater a nossa porta a qualquer momento.

Então… Na minha opinião, foi tudo covardia!

Foi covardia termos sido sempre tão simpáticos com nós mesmos e com outrem, isso ilude.

Foi covardia permitir que uma amizade evolua tanto em tão pouco tempo, nos tornando confidentes; covardia permitir que a confiança ultrapassasse os limites do saudável, isso ilude.

Foi covardia me apresentar à sua mãe. Covardia me apresentar ao seu pai, sabendo muito bem qual seria a reação dele. Me apresentar à sua irmã também não foi um ato muito sábio. Mas covardia mesmo foi me apresentar ao seu amigo-irmão, chamando-me de “amor da minha vida”. Nossa, como isso ilude!

Mas não nego que também foi covardia minha deixar transparecer que eu estava entregue, mesmo sendo uma transparência muito, muito irreal…eu sei que iludi.

Foi covardia minha me importar tanto, me preocupar tanto, gostar tanto, brincar tanto, confiar tanto, sorrir tanto… Nos iludiu tanto!

Na verdade, foi covardia do destino unir caminhos que um dia, lá na frente, não iam mais se cruzar, e sim, trombar, causando estragos irreversíveis.

Mas como pra tudo há um porquê, eu sei que não foi o acaso que nos uniu (e desuniu).

Agora, toda vez que te encontro, tenho que vencer uma batalha dentro de mim: parecer natural ou assumir o que realmente sinto?
As pessoas me dizem pra sorrir, pra fingir que nada aconteceu e que tudo foi superado. Assim, o tão famoso “get over it” faria mais sentido e você poderia perceber o que perdeu.

Mas alguma vozinha dentro da minha cabeça me faz acreditar que se eu mostrar o quanto fiquei triste, o quanto queria que as coisas voltassem ao estágio do incrível e o quanto eu ainda penso em você, isso o faria sentir culpado. O faria lembrar de cada vez que mentiu e o que cada mentira pode acarretar numa vida…

Não escolhi nenhuma dessas opções, nenhuma ia fazer o tempo voltar atrás.
Escolhi esquecer.
Esqueci, pois sou o tipo de pessoa que prefere lidar com o esquecimento dia após dia, do que conviver com o rancor.
Pode ser muito melhor pra nós dois, que quando o destino nos unir novamente, eu seja capaz de te desejar toda a felicidade do mundo, da mesma forma que eu desejo que desconhecidos sejam felizes. É necessário que seja um desconhecido, pois se carregar comigo todas as lembranças de algo que só pareceu bom, o mínimo que eu serei capaz de desejar é que o mundo dê suas tão famosas voltas!
E sabe o que é pior? É que não é a primeira vez que isso acontece e eu sei que não será a última. Já se tornou rotina…

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Esse desabafo foi inspirado em diversos outros desabafos que tive o privilégio de ouvir e, também, naqueles próprios casos nos quais tive a infelicidade de testemunhar.
Não que isso tudo fuja muito do meu próprio desabafo…!

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5 opiniões sobre “Rotina de uma vida

  1. Olha, eu, como uma boa criadora de textos aleatórios, adoro ler textos pessoais que de algum jeito digam o que eu sinto/senti, penso/pensei. E com seus três não foi diferente. Escreve muito bem, voce se dará bem na sua profissão. Continue assim, quero ler mais textos.

    Beeijos

  2. “Foi covardia minha me importar tanto, me preocupar tanto, gostar tanto, brincar tanto, confiar tanto, sorrir tanto… Nos iludiu tanto!
    Na verdade, foi covardia do destino unir caminhos que um dia, lá na frente, não iam mais se cruzar, e sim, trombar, causando estragos irreversíveis.”

    Nossa, Rá! Perfeito! Sem palavras *-*

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