As mentiras da minha infância

Definição de família por Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis:
(lat familia) sf 1 Pessoas do mesmo sangue. 2 O pai, a mãe e os filhos. Em família: familiarmente, sem cerimônia.

Definição de família por Raíssa Gabriela da Conceição Palma:
(gr οικογένεια) 1 Tudo isso aí em cima. 2. Que cria, que educa, que ama, que alenta. 3 Os primeiros a estar do seu lado em qualquer circunstância. 4 Envergonha, traumatiza, engana (no bom sentido), faz chorar, faz rir.

Mas vamos aprofundar mais esse quarto item, né?

Eu sempre soube que fui (e continuo sendo) ingênua demais, mas o que minha família se aproveitou disso foi sacanagem. Graças a várias conversas, algumas lembranças e muito tempo livre que eu tenho tido, comecei a me lembrar de cada coisa que me contavam na minha infância e, não sei porque, achei uma boa idéia compartilhar isso com qualquer um que leia este texto.

Como a maioria dos que me conhece sabe, eu fui uma das milhares de crianças sortudas que teve a honra de ser criada pelos avós. Mas ouso dizer que minha honra foi um pouquinho maior, pois eu os tinha só para mim. É, isso mesmo, eu não tinha primos, irmãos ou agregado nenhum à família pra ter que dividir o amor incondicional do Seu Manoel e da Dona Lourdinha!

Sim, isso me tornou uma criança mimada, mas só 50% e só por um tempo. Pois tudo que meus avós me estragavam, minha mãe ia lá e ‘desestragava’, o que era muito confuso pra mim na época.
Sendo assim, já cresci perdida e tudo tendia a piorar… E parece que piorou! Piorou a partir do momento que minha família resolveu me trollar antes mesmo desse termo existir, quando ainda vivíamos no século XX, quando fitas cassete da Disney faziam sucesso, quando Chiquititas era novela que criança gostava de assistir, quando beijo na boca ainda não era coisa do passado e quando eu achava que ser adulto era muito melhor que ser criança. Ou seja, faz tempo!

Mas enfim, lá nos anos 90 (adoro esse termo porque me dá o direito de dizer “na minha época”) eu comecei a ser enganada e até hoje eu descubro cada mentirinha que fez de mim uma criança paranóica. O que mais me impressiona não são as mentirinhas, e sim, como eu consegui acreditar nelas!

Eu já acreditei que colocar uma linha branca ou roxa lambida na testa de um bebê curava soluço.
Já acreditei que se eu engolisse chiclete, ele grudaria todos os meus órgãos e eu morreria em questão de horas.
Já acreditei que os casos do Linha Direta eram reais e as pessoas preferiam filmá-los aos invés de salvar as vítimas.
Eu já acreditei que pendurar vela numa rede de balão faria um pedido meu se realizar.
Já acreditei que ler enquanto se come causa cegueira e por causa disso, eu deixei de ler muito gibi da Turma da Mônica.
Já acreditei que pomada Minancora cura tudo, até dor de amor.
Já acreditei que riscar ou cortar cabelos de bonecos desperta o espírito Chuck, o boneco assassino que há neles. Mas essa crença me proporcionou brinquedos intactos e belos (até eu ganhar primos).
Já acreditei que aqueles churrascos que vendem nas ruas, portas de padaria e botecos não são churrascos normais, e sim, gatos que os churrasqueiros encontravam nas ruas. O pior de tudo é que mesmo assim eu tinha coragem de comer…Vai entender, né?!
Já acreditei que se eu pisasse nos buracos da ponte esburacada de Paranapiacaba eu cairia no rio e isso me fazia pular igual uma retardada e gritar e espernear temendo pela vida daqueles que me acompanhavam.
Nunca acreditei em homem-do-saco ou algo do tipo, mas tinha um medo surreal do Chupacabra, do Lobisomem e do Cadeirudo. Aliás, meus avós já me fizeram acreditar que o Lobisomem morava em Sergipe e andava pelas redondezas de um fim de mundo chamado Terra Caída. E o Cadeirudo? Bom, dispensa comentários. Quem me conhece sabe que esse trauma é pra toda a vida!
Já acreditei em trocentas mil coisas que nenhuma criança equilibrada acreditaria e eu ainda tinha o péssimo hábito de querer convencer as pessoas que meus avós eram sábios demais pra estarem enganados!

Mas o pior de tudo eram as historinhas bem elaboradas que eles, com toda certeza, treinavam dias e dias pra conseguir me contar sem rir na minha cara.

Tem a história do meu peixe, na verdade, peixA Monalisa que deixei sob os cuidados das minhas tias e elas a mataram. Além de matarem, trocaram por uma igual e fingiram por um bom tempo que tava tudo bem. Até eu descobrir que a Monalisa tinha virado Monaliso sem explicação.
Essa história foi desmascarada há uns 10 meses. Enganação média.

Tem outra história que minha vó, mancomunada com a vizinha, contava pra mim: elas diziam toda semana, toda quinta-feira pra ser mais exata, que iam num enterro. Era sempre “Bebéla, fica em casa que a gente vai na morta” e como eu nunca fui muito fã de enterros, ainda mais a noite, eu ficava em casa mesmo e desgrudava da barra da saia da D. Lourdinha. Mas depois de uns 2 meses, ficou estranho esse povo todo morrer e eu resolvi que queria confirmar essa história aí. Acontece que não tinha morta nenhuma e as duas iam pra pizzaria da rua de cima que tinha sido inaugurada há pouco tempo. Em minha defesa, minha tia também era vítima dessa enganação!
Enganação grave, pois envolve comida.

A mais criativa de todas era, definitivamente, a do cemitério.
Lá perto da casa da minha vó tem um cemitério enoooorme com um terreno baldio mais enorme ainda. As crianças adoravam pular a cerquinha pra soltar pipa longe dos fios e dos carros. Não sei de onde meus avós tiraram o receio de que eu pudesse me juntar ao clube também, afinal, nem pipa eu tive. BUT, eles se asseguraram de qualquer forma. A história bizarra da vez é que o diabo morava lá. Sim, o diabo! Eles me mostravam a localização e tudo, o que acontecia com quem invadia o terreno, o horário que ele saia de casa e como ele gostava de roubar crianças pra morar na casinha de um cômodo dele. Fui entender muitos anos depois que aquilo era uma casa de coveiro abandonada!
Enganação gravíssima, porque meeeeeeuu, QUEM MEXE COM O DIABO?????

E a história de que bater na mão de criança a deixa retardada…?!?! História polêmica até hoje! hahahaha

Essas e muitas outras histórias (isso mesmo, MUITAS) ajudam a provar que há muito tempo eu sou assim (pelo assim, você escolhe o adjetivo que bem entender).
E mais, perto disso fica claro demonstrar que apanhar na mão era o menor trauma que podia me acontecer.

Apesar de ter sido causadora da risada alheia por muitos anos, eu sou grata.
Agradeço toda a minha família por me ensinar a viver com bom humor até nos momentos mais críticos. Por me ensinar desde cedo que a vida não pode ser levada tão a sério. Por me ensinar a usar a criatividade. E, principalmente, por mostrar o amor incondicional nos menores atos, desde uma vida dedicada a mim até um peixinho de aquário trocado pra evitar que eu derrubasse meia dúzia de lágrimas.

E essa é minha homenagem especial ao Seu Manoel e à Dona Lourdinha, que hoje dão risada de muita coisa lá do céu. Achei injusto continuar com aqueles textos tristes, de saudade e de dor, quando o que eles mais quiseram me ensinar foi a RIR.


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7 opiniões sobre “As mentiras da minha infância

  1. Meeeu, eu tambem ouvi alguma dessas histórias. Varias. O cadeirudo e o chupacabra eram os piores.

    Como adulto gosta de rir da inocencia das crianças –‘

    Tudo bem que agora eu faço isso com meus priminhos (6)

    Adorei o texto
    Beijos

  2. Que lindo, que lindo, que lindo
    Texto maravilhoso, também acreditei em muitas dessas coisas, haha, o final do texto está emocionante, chorei aqui.

  3. Nossa tô rindo horrores aqui, caramba meu que mancada hein Rá?
    Mas olha, mandou muito bem, não queria que o texto acabasse.
    E preciso dizer que nunca tive uma festa da branca de neve. Inveja de você 😦

    Parabens Rá! Como eu ti disse naquele dia que esperávamos o onibus B-19, sou sua fã! haha bjus

  4. Rá,

    eu sei muito bem o tamanho do medo que você tem do cadeirudo. Você que o diga quando eu imiatava as perninhas dele em sala. Voce quase tinha um “treco”.
    Mas agora falando do texto…lindo texto, muito pessoal e cativante. O jeito que você amarra as ideias é muito legal e como dá uma lição para todos no final é melhor ainda. Você está mais que no caminho certo para ser uma excelente jornalista.

    Beijos do seu forever teacher and PROUD!

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