Não há razão, só coração!

Num domingo rotineiro na companhia da família, tive a oportunidade de vivenciar o melhor exemplo de sabedoria que obtive nesses 18 anos. E o mais legal de tudo é que as sábias palavras vieram de uma criança.

– Rá, adivinha o que eu vou querer ser quando crescer?
– O que?
– Uma jornalista.
– Por que? Por minha causa?
– Ué, você nem é jornalista ainda. Mas pode ser…é…também…!

A inteligência já começou a aparecer nesse instante: ela é uma das únicas que enxerga a realidade e não me exige o desempenho de uma profissional experiente, sendo que mal ingressei na universidade.

– Mas Lô, me conta mais. Qual o motivo de querer ser jornalista? Você quer aparecer na tevê?
– Não. Jornalista não aparece na tevê.
– Claro que aparece, bebê. Esse cara aí, na bancada do jornal, é jornalista. Entendeu? Jornal, JORNALista!
– Ah sei lá, mas não é por isso não. Eu quero mesmo é viajar o mundo.
– Mas pra viajar o mundo você não precisa ser só jornalista, você sabe disso, né?
– Mas eu quero ser rica e jornalista é rico. Né?
– (risos, muitos risos)

Isso me fez lembrar de uma conversa que tive com dois colegas de classe, na qual indagávamos como fomos parar lá, se todo o esforço seria recompensado um dia, se não valeria mais a pena fazer algo que nos rendessem um lucro maior para termos um futuro mais promissor…e toda aquela baboseira de quase-adultos.
Em questão de segundos, viajei no tempo e comecei a refletir sobre tudo o que eu passei e se foi realmente válido. Sem contar no que ainda terei que enfrentar com a coragem que ainda precisa amadurecer e a maturidade que precisa ressurgir e…

Minha mente retornou rapidamente à conversa quando a segunda criança, no caso, minha irmã, resolveu compartilhar suas opiniões e dúvidas.

– Jornalista tem que saber de tudo, né Tata?
– É, bebê.
-Mas tudo, tudo, tudo? Até das coisas que aconteceram quando nem o pai era nascido?

(Na preguiça de explicar detalhadamente, optei por uma resposta firme, curta e não muito esclarecedora) TUDO!!!!

As duas se entreolharam com espanto e, praticamente juntas, perguntaram:

– Você vai ser jornalista?????????????
– Vou!

Enquanto minha irmã manifestava-se com um sonoro “NOOOOOOOOOOSSSAAAAAAAAAA!!!!!”, minha priminha abaixou os olhos e me enviou um sinal demonstrando que o assunto estava encerrado.
Daí quem ficou interessada fui eu. Tive a impressão que acabara de destruir os sonhos de uma inocente criança.

– O que foi, Loli? Você não gostou da minha resposta?
– Não gostei da cara de desanimada que você fez quando me respondeu, isso sim!
– Mas Lô, não se preocupa, eu gosto do que eu faço, sei que serei boa e se você se esforçar, será melhor que qualquer um conheço!

Os grandes olhos de jabuticada miraram para mim com um indício da esperança renascendo.

– Você é feliz com o que você faz?
– Muito! Não me vejo fazendo mais nada. Quer dizer, posso até ser outras coisas, mas não farei tão bem quanto como jornalista!

Ela sorriu. Eu sorri. Nos abraçamos. Até que ela disse:

– Se um dia eu for como você, tá bom pra mim. Aparecendo na tevê ou não, já tá bom!

E uma lágrima escorrendo de meus olhos entrou em cena.

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Quando se escolhe essa profissão?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

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3 opiniões sobre “Não há razão, só coração!

  1. Caramba SENSACIONAL. Texto muito bem escrito. Sabe colocar os diálogos, os pensamentos e dizer tudo o que quer em poucas palavras. Sério mesmo, sem hipocrisia, sou sua maior fã.
    Um dia, lá na frente, vou ter o prazer te dizer: Eu era da mesma sala que a Raíiiiisa Palma!!! (que eu pensei que era Palmer, mas tudo bem).
    Meus sinceros parabéns. =D

  2. Que lindo, cara!

    Confesso que não era meu sonho de criança ser jornalista. Confesso que optei por prestar vestibular pra Jornalismo já tarde, com 17 anos, numa dessas indecisões de adolescente que não sabe o que fazer com a própria vida.

    Mas que coisa engraçada é o Destino, não? Hoje eu tenho um orgulho danado de ter escolhido essa profissão.

    Lindo o texto, Rá!

  3. Essa é, realmente, uma profissão de respeito, tem que ter coragem pra segui-la. Como outras profissões de comunicação, diga-se de passagem. Não querendo me gabar e nem puxar seu saco, obvio, mas parabéns e boa sorte para nós, futuras comunicadoras. Realmente temos que ter muito amor ao que fazemos, porque não é fácil.

    E deve ser lindo ver uma criança dizer: Quero ser igual voce quando crescer.

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