“O fim de (quase) tudo” – Antonio Prata

Sempre tenho aquele momento no trabalho em que leio praticamente todas as colunas dos principais portais que tenho que acessar (lógico, só depois de ter terminado meus afazeres!) e regularmente esboço um sorriso ou outro com certos parágrafos.

Porém hoje, justo hoje que acordei relativamente feliz demais pra quem levanta às 5h da madruga, me deparei com um dos textos mais sutilmente depressivos que eu poderia ler. Mas ok, admito que também é uma daquelas leituras com grande capacidade de prender a atenção de qualquer ser semi-alfabetizado.

Anyway, não me segurei e tive que vir aqui compartilhar a curiosa reflexão do Antonio Prata, escritor e colunista da Folha de S.Paulo. And here it is:


“Na manhã do dia 1º, meu amigo me liga, deprimido:

-Você sabia que o mundo vai acabar?

Penso tratar-se de uma dessas bobagens que misturam calendário Maia com filme-tragédia e começo a desancar o marketing hollywoodiano, mas meu amigo explica que não é nada disso. Viu num documentário que a Terra acabará daqui uns bilhões de anos, quando o sol, tendo esgotado seu combustível, dará um último suspiro, transformando-se numa gigante vermelha e engolindo nosso simpático planeta. Ficamos um tempo em silêncio, os dois pensando nesta bela e terrível imagem: a bola de fogo consumindo o Everest, a Teodoro Sampaio, os avestruzes, os casais apaixonados, as usinas nucleares e as fronhas nos varais.

-Olha, não chega a ser exatamente um consolo, mas daqui uns bilhões de anos nem eu nem você vamos mais estar por aí…

-Eu sei, mas eu achava que a humanidade ia continuar. Que o teto da Capela Sistina, as gravações do Cartola, os poemas do Walt Whitman e os peitos da Claudia Cardinale em “Era uma Vez no Oeste” ficariam pra sempre, só que tudo vai desaparecer… Isso não te angustia?!

-Não quero parecer muito egoísta, mas o que vai ser das pinceladas do Michelangelo depois que eu bater as botas não tá entre as minhas maiores preocupações.

-Pois tá entre as minhas. Antes, eu achava que o mundo era eterno e que se eu escrevesse um livro muito bom [meu amigo é poeta], esse livro ia se juntar a todas essas coisas que permanecem. Mesmo que ficasse no fundo de uma biblioteca, numa estante perdida entre um zilhão de estantes, ia estar lá: minha pequena colaboração para a humanidade. Você nunca quis produzir algo que sobrevivesse a você?

-Sinceramente? Concordo com o Woody Allen, quando disse que não queria atingir a imortalidade através da sua obra, preferia atingi-la simplesmente não morrendo. Uma vez cadáver, que diferença faz ser ilustre ou desconhecido? Ruim mesmo é nunca mais comer um frango a passarinho, é ou não é?

Meu amigo não responde. Parece um tanto decepcionado com a minha insensibilidade. Procurou um ombro fraterno para chorar a transformação de toda a poesia em poeira cósmica e eu venho com essa de frango a passarinho? Lembro, então, de algo que li num livro e que pode melhorar a situação:

-Calma! Nem tudo vai acabar: mesmo depois do fim da Terra, as ondas de rádio que emitimos continuarão se propagando por aí.

-Quer dizer que das obras completas da humanidade vai sobrar só o conteúdo das AMs e FMs?!

Percebo minha gafe, mas é tarde. Meu amigo se desespera. Shakespeare virará pó, mas a voz de Justin Bieber, agora mesmo, viaja pela Via Láctea; e se em algum canto houver vida inteligente -e a vida inteligente tiver construído um radinho-, o legado de nossa passagem pelo cosmos ressoará, eternamente: “Baby, baby, baby oooh/ baby, baby, baby oooh/ baby, baby, baby oooh”. Realmente, não faltam motivos para se deprimir.”

Agora falando sério, mesmo após acordar feliz, conseguir um lugar pra sentar no trem, conhecer mais um paulistano simpático e comunicativo (até demais) no meio do caminho, dar umas boas risadas com os colegas de trabalho e todo o blábláblá que faz a diferença no dia a dia, como é que alguém sente vontade de continuar vivendo num universo em que Justin Bieber será eterno? rs

Link aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/18219-o-fim-de-quase-tudo.shtml
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