Mera certeza

Vivendo numa realidade tão conturbada, são poucas as certezas que podemos cultivar por um tempo louvável. Eu, por exemplo, acreditei que alguns valores seriam eternos, que o curso que minha vida tomaria era, grande parte, de minha própria responsabilidade e que muitas perdas eram irreparáveis. Da mesma forma, acreditei que eu nunca seria ciumenta, que meu riso de infelicidade enganava qualquer um à minha volta e que eu já desaprendera a ser uma tola apaixonada.

Por culpa desses e de tantos outros encantos quebrados, deixei que me jogassem no labirinto das relações sem valor. Eu e, provavelmente, todo o resto da humanidade.

Daí, do alto da juventude plena, das preocupações risíveis e das incertezas finitas, quando eu já nem acreditava mais em muita coisa que deveria ser real, me surpreendi. A vida me deu uma rasteira ao contrário e me impulsionou fazendo com que eu chegasse no auge das crenças que ainda valem a pena.

Reaprendi que faz bem se entregar ao desconfiante, desvendar certos segredos aos sete ventos, mostrar que fragilidade e insegurança não são pecados. E assim, descobri também que ainda há quem me faz acreditar no real valor da amizade. Não uma amizade supervalorizada, nem mesmo aquela que cobra toda e qualquer demonstração de sentimento explícito.

Hoje afirmo com propriedade que acreditar em (restritas) ilusões pode dar muito certo. Afinal, bom demais pra ser verdade é tudo aquilo que não tem definição, aquilo que te enxerga com olhos de águia e, ainda assim, mal sabe te descrever. Bom demais pra ser verdade é ter alguém que te mostra o valor de ser você mesmo e de se superestimar. Bom demais é ouvir o que sempre quer, mas não acha que merece. Não tão bom quanto ouvir aquilo que dói, corrói e destrói, mas que é por um bem maior. Reconfortante saber que se um dia alguém me tirar a base, outro alguém poderia reconstruir meu mundo e quem eu sou num piscar de olhos, melhor do que eu mesma faria.

Das poucas certezas que ainda cultivo nesta realidade conturbada, a maior delas é saber que tenho um refúgio que me protege. Um telão capaz de mostrar todas as imperfeições que o espelho não reflete. A mais pura e valorizada psicologia de poder contar com quem sempre contou comigo, não importa onde, quando e como. A certeza que terei um ombro pra poder chorar devido a um acontecimento qualquer, e que, logo em seguida, terei mais dezenas de outros acontecimentos para lembrar como sorrir.

Cultivo a certeza que vale a pena preservar quem te faz bem, quem te quer bem, quem é o seu bem, o próprio bem. Meu bem tem nome, faixa etária, perfil nas redes sociais e até comunidade no orkut. Meu bem é a amizade, e a melhor de todas!

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