Está por aqui, em algum lugar, eu sei

“Oh God, can you tell me when it’s going to stop?

Maybe it’s not just down to you.

Oh God, can we win back what we have lost?”

 (Jamie Cullum – Oh God)

Minha vó, sempre supersticiosa, nos dizia que pra criança ser inteligente, têm de se colocar o umbigo dela dentro de um livro. Minha mãe, sempre discípula de todos os conselhos de mãe, assim como eu, não fez diferente. Depois dos meus primeiros 7 dias de vida, Dona Marcinha pegou um livro qualquer e colocou dentro aquela coisinha singela que nos tornara uma só por 9 meses.

Quando cresci, ela me contava que preferiu o livro, pra ter uma filha inteligente, mas eu sempre fui meio ressentida por ela não ter escolhido a rosa. Crianças mal sabem que beleza é bem pouco importante na vida.

Anos se passaram e já pouco me importava com o paradeiro daquele umbigo, principalmente ao levar em conta que minha mãe nem sequer lembrava em qual livro o colocara. Dizia-me sempre que fora num de biologia, o que nunca fez muito sentido, visto minha falta de paixão pelas ciências biológicas. Até que preocupações maiores surgiram e resolvemos curar a perda insuperável de uma parte de mim, rs.

Daí teve aquela parte da minha história em que ganhei uma irmã, depois ganhei outra e mamãe não repetiu o mesmo erro. Enfiou logo o umbigo delas num livro de português -porque matemáticos na minha família nem apelando pra todas as religiões – e o guardou a sete chaves.

E cá estou eu, meio desolada, meio perdida, tentando me alegrar com pequenas coisas, mas sentindo falta de um empurrãozinho pra levantar. E lá está minha mãe, também desolada e perdida, tentando se reerguer pra me levar junto com ela, mas com dificuldades em achar o caminho que nos livre dessa estrada rumo ao abismo ou coisa parecida. E a gente reza, pede, chora, chama e nada. Não temos mais mãe-avó supersticiosa, não temos mais bolinho de chuva feito as pressas pra permanecermos lá na casa dela no domingo a noite, não temos mais ligações no meio do dia nem chorinho de orgulho, nem viagem de meio de ano. Parece que ela levou tudo…

Até que Dona Mamãe resolve, após 18 anos, voltar a procurar o bendito umbigo. Ex-desaparecido, encontrava-se dentro do mesmo livro de português que guarda a inteligência da Rebeca e da Sofia, o que parece bem surreal quando lembramos que esse livro é relativamente novo e minha mãe já o havia aberto mais vezes para não lembrar de ter se deparado com algo estranho dentro dele. Mais surreal ainda, perdida entre as orações diretas e indiretas e os poemas de Drummond, havia uma bíblia. E lá encontrava-se minha pequena parte perdida. Talvez melhor situada que eu.

E nem sequer nos demos o trabalho de questionar como. Como aquela bíblia foi parar no meio do livro? Como o umbigo apareceu dentro dela? Como minha mãe os encontrou tão fácil e repentinamente? Como, como, como?

Preferimos acreditar que tem coisa de vó aí, só pra nos provar que as superstições dela eram reais e que, se mãe sempre acerta, avó acerta em dobro.

No fundo eu sempre soube que esse umbigo estava nalgum lugar perto, que memória de gente grande é confusa e ruim e só precisávamos de um real motivo pra procurá-lo de verdade. Assim como eu continuo acreditando que minha vó está por aqui, nem um pouco perdida, e sim pronta pra nos encontrar em qualquer lugar, pra nos trazer de volta às tardes de domingo com chuva e bolinhos e crenças de um futuro belíssimo. Hoje ela está aqui, eu sei.

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