Tranque as portas

Um daqueles dias em que tirar o pijama é tarefa árdua demais pra quem deita e levanta cansado dia após dia. Sentindo aquele frio de congelar qualquer comida recém preparada e qualquer paixão recém nascida. Eu fecho todas as janelas, vitrôs e frestas pra impedir que vento algum entre para me incomodar. E você se esgueira pela porta encostada – justo aquela que perdi a chave anos atrás – e pede pra que eu deixe estar. “Tá frio demais pra me mandar embora, e eu preciso de companhia.”

Me lembro daquela noite em que brincávamos de nos perturbar e eu disse que em questão de meses você sonharia comigo todas as noites. Que você sofreria por ter deixado que eu escapasse e fugisse pros braços de alguém que nem sequer dorme, quanto mais sonha. Que lembraria mais e mais de como riam da minha cara quando eu dizia que você já me achava apaixonante, e de como você acreditava que não se apaixonaria por mais ninguém. E de todas as vezes em que jurei pra nós dois que eu provaria minha razão.

Mal imaginávamos que eu tinha mesmo razão. Você revela que já pensa em mim todo o tempo, e às vezes sonha conosco, e eu já nem durmo mais de tanto que penso em ti. A gente descobre que sempre bate aquela vontade de mandar mensagem de boa noite, mas que isso é coisa de casais apaixonados – e nós somos apaixonados. A gente deita e eu faço cafuné no teu cabelo sem gel e peço pra você não ir embora, mas a essa altura você já pegou no sono, não ouviu nada. E eu te deixo ali.

Você e teus medos. Você e teu frio. O frio e tua aliança larga. Tua aliança e a namorada que você esqueceu em algum lugar. Tua namorada e todos as tuas promessas pra ela, nunca pra mim. E eu só nos teus sonhos, que foi o que me restou.

Ninguém te chamou, eu nem te queria por perto, mas alguma coisa te trouxe até mim. Eu tento pensar que foi sentimento, consideração, compaixão. Mas no final das contas foi só o frio. Foi alguém gritanto “Abriguem-se até que a ventania vá embora! Protejam-se no mais quente dos ambientes, no mais caloroso dos recintos, e permaneçam! Só saiam quando o sol voltar a raiar!”

E eu não sou teu sol. Pelo contrário, sou somente o reduto que te acolhe entre uma tempestade e outra até que você consiga chegar no teu desígnio. Eu sou somente as vírgulas, no máximo as reticências, nunca o teu ponto final.

Lembre-me de trancar todas as portas antes do próximo inverno.

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3 opiniões sobre “Tranque as portas

  1. Me lembrei da frase do Gabito Nunes, “Ouvi alguém gritando – olha o temporal. Corri e fechei as janelas. Só que você entrou pela porta.”
    Muito lindo, Rá! Parabéns!

  2. Que lindo Ami!
    “Eu sou somente as vírgulas, no máximo as reticências, nunca o teu ponto final.” Eu adoro textos que terminam com reticências….

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