Cara vendedora,

Abri o armário e absolutamente nada ornava com o resto, pra piorar, eu enrolara muitíssimo tempo pra me mudar toda e encontrar um sapato que combinasse. Então o que me restou foi ir ao fundo, bem fundo do sapateiro, onde só restaram aqueles calçados que já se familiarizaram com o mofo há um certo tempo.

Até que me lembrei daquele, o simples, básico e primeiro sapato alto que tive, comprado pra ir na primeira festa com as amigas, a que ia até altas horas da madrugada e fazia com que eu me sentisse gente grande no auge dos meus treze anos. Por que não usá-lo, certo? O pobrezinho me deu tanta alegria e tantas bolhas nos pés que merecia uma folga do fundo do baú.

Lembro-me da primeira vez que o experimentei. Parecia o mais alto do mundo e o mais ideal. Os primeiros passos foram trágicos, típicos da mocinha que nunca havia visto o mundo das alturas. Depois de um tempo, até que dava pra disfarçar um pouco a forma desajeitada de andar, mas a realidade é que foi necessário muito tempo e muito uso pra me acostumar com aquele novo apetrecho.

Mas hoje, quando o calcei de novo, seu salto parecia mínimo, e só de pensar que eu o imaginara como o sapato mais alto já visto em todos os dezenove anos vividos, me senti meio boba. Agora ele era só mais um dos abandonadinhos, dos que nem deixam o look tão elegante assim. Mas ainda merecedor de outra chance, talvez a última.

A realidade é que ele está mesmo bem mais baixinho do que parecia e não tão belo quanto no dia do encanto à primeira vista na loja. Pior ainda, nem confortável ele é. A cada dois passos, o pé escapa, o salto vira, o tornozelo torce e eu simplesmente não entendo porque o tempo tornou tudo tão mais difícil. Ele era perfeito há seis anos, mas sei lá, as coisas mudam, o formato do pé pode nem ser mais o mesmo e os relevos antes percorridos estão drasticamente desiguais.

Então, vendedora que me disse que o meu sapato preto lindo me seria útil pra sempre, veja bem: eu já sei que era tudo mentira. Ele pode sim ter sido ideal por alguns anos, foi mesmo amor desde a primeira prova e tudo mais, ele significou – literalmente – muitos passos dados, mas já está gasto. E meu coração de treze anos pode até fazer força pra acreditar que ele é the onemas a vida está gritando escandalosamente nos meus tímpanos que eu devo buscar coisa maior. Não sei se é esse apego ou se foram suas frases feitas pra concluir a venda, mas tá difícil largar, doar, passar pra frente. Só peço que pare de iludir adolescentes descobrindo seus primeiros saltos, ok?

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4 opiniões sobre “Cara vendedora,

  1. Adorei a desilusão com o sapato… Isso me lembra Sex and the City… onde o sapato certo também atrai o cara certo… haha… Ta bom, eu sei que você raramente usa metáforas sobre homens e sapatos, mas eu to vendo amor em todos os lugares… Desculpa.

    Bom… Adorei 🙂

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