Inesquecível

“Eu nunca vou te esquecer” é uma das poucas frases que deveriam ser evitadas ao máximo durante o tempo de vida de alguém, tanto quem fala quanto quem escuta. Não por ser falsa, ilusória ou sentimentalista ao extremo, e sim, por ser desnecessária. Penso que a partir do momento que alguém deixa uma marca das mínimas em sua vida, ainda assim é uma marca. Ou seja, não será apagada. Ou seja (mais uma vez!), nunca será esquecida.

Nos tempos áureos de ensino fundamental, mais especificamente da sexta à oitava série, eu tinha o hábito inexplicável de acordar 45 minutos mais cedo que o necessário para ir à escola. E o roteiro de cada manhã era mais ou menos assim: eu acordava, ia ao banheiro, lavava o rosto e escovava os dentes, colocava meu uniforme na velocidade da luz e descia pra tomar café; menos de dez minutos depois, eu voltava a escovar os dentes, pegava minha mochila e a jogava num dos sofás da sala, no outro eu me deitava; ligava a TV na Warner Channel e lá ficava, assistindo Gilmore Girls até que chegasse o horário de ir pra casa da vizinha aproveitar a carona dela.

Sempre cultivei um apego peculiar por esse seriado, talvez por ser tão parecido com certos desejos que cultivei ao longo da vida e, ao mesmo tempo, tão diferente da minha realidade. Quem conhece o mínimo de Lorelai & Rory Gilmore, consegue rapidamente associar a minha vontade de ter um blusão de moletom da Yale, pular de algum lugar alto usando um guarda-chuva como paraquedas e – olhem só que coisa – ser jornalista!

Voltando ao assunto inicial, esse seriado deixou muito claro pra mim algo que eu nunca soube explicar em poucas palavras: o dilema de esquecer ou ser esquecido. Num episódio que não lembro o número nem a temporada, Lorelai incita Rory a escrever seu nome na madeira histórica do colégio tradicionalíssimo em que estudara, pra que depois da formatura ela ficasse eternizada naquele ambiente. E é isso que vocês precisam saber, caso contrário, eu faria sinopses de seriado e não textos inúteis sobre minhas impressões da vida.

Continuando… Sei que no meu 3º ano do Ensino Médio, resolvi fazer o mesmo, afinal, aquela escola precisava ter uma marca minha, os alunos que por ali passassem necessitavam muito saber que um dia a Raíssa Palma estudou lá. E assim o fiz, não lembro onde exatamente, mas sei que meu nome está talhado numa das madeiras não tão históricas do Colégio São José. E assim, acredito que uma das minhas marcas será eternizada.

Mas o fato é que ser lembrado ou citado por desconhecidos não tem lá muita importância pra uma reles moral como eu. Porém, quem compartilhou daquela sala de aula comigo, quem me viu rir e chorar durante os sete anos gastos naquele lugar e, principalmente, quem se tornou motivo pros meus risos e choros, não precisariam de marca alguma na madeira pra se lembrar de mim.

Eu lembro até hoje da Lauane que estudou comigo no pré e nunca parou de chupar o dedão. Nem do Giovanni Francesco que colou palitos de fósforo no meu cabelo pixaim no primeiro ano de escola (esse menino, particularmente, eu não esqueço mesmo porque ainda pretendo acertas as contas!). Não esquecerei da professora Leomara que fez eu perder o medo de descer no escorregador, nem do Lucas que apanhava de mim todo dia no polícia e ladrão e sentia ciúmes quando eu batia em outro menino (era amor, gente, só pode). Essas e muitas outras pessoas jamais ouviram um “eu nunca vou te esquecer” da minha boca, nem mesmo precisaram tatuar seus nomes na minha pele pra que eu sempre me lembrasse desses episódios, elas simplesmente foram marcantes.

E eu só cheguei, enfim, a uma conclusão exata sobre essa minha crença mal formulada quando lembrei do dia em que ouvi isto e fiquei mexida pela primeira vez. Não preciso entrar em detalhes (ou melhor, preciso sim, mas só em outro texto porque este já está gigante), a real é que ninguém tem noção do quanto essas cinco palavrinhas significam num dia-a-dia corrido e abarrotado de muita coisa pra se esquecer.

Portanto, caros e caras, não façam questão de lembrar-me repetidamente o quanto eu posso ser inesquecível pra vocês – mesmo que nem sempre isso seja bom. Façam questão somente de serem repetidamente importantes, por um só dia, um só ano ou a vida toda. Não precisa chupar dedo até os 20 anos não, nem mesmo apanhar de mim no polícia e ladrão e MUITO MENOS colar qualquer coisa no meu cabelo ainda um pouco pixaim. Das gargalhadas inoportunas que eu dei, das vezes que dancei até dizer chega, dos dias em que minha bochecha doía de tanto ficar feliz e sorrir e até dos momentos em que deixei uma lágrima ou muitas delas caírem, quando soltei uma pérola ou confessei um sentimento, sei lá… De tudo isso que eu fiz em sua companhia, nada mais precisa ser feito pra que eu nunca te esqueça. Sua marca já está feita em mim e sem nenhum problema, porque eu não sou histórica ou tradicionalíssima pra qualquer um sentir culpa por isso.

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