– 06/12/2013

A rotina não é tão cruel quanto parece, especialmente quando sair do estado de torpor que ela causa significa sair um pouco de si. Cada dia é uma nova descoberta, afinal. Enquanto escrevia a data de hoje num e-mail de trabalho – da mesma forma que faço todos os dias – parei e prestei atenção neste 06 de dezembro de 2013. Não porque o ano está acabando, passou rápido e coisas do tipo. Mas porque em dois dias eu estaria comemorando o 66º aniversário da minha avó. O curioso é que eu tenho uma memória fascinante pra tudo o que envolve datas, mas em três anos eu nunca sequer lembrei que esse dia se aproximava. Sempre me recordava depois, quando já tinha passado, e né…passou, bola pra frente. Na minha concepção de tempos justos, hoje eu estaria em algum lugar, em busca de algum presente ou organizando alguma surpresa. Mas hoje, enquanto digitava “06/12/2013” no assunto do e-mail, só deu tempo de correr do escritório para o banheiro e chorar por quanto tempo eu conseguisse. Ainda não parei.

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Eu não gosto mais de Natal, não consigo passar o ano novo com a minha família e não posso ver os avós de alguém que já me bate uma tristeza. E é porque eu sou fraca. Fraca, sentimental e exagerada. E sou igual aos meus avós, alguém que chora na frente dos outros, mas não quer incomodar com bobagem. Eu herdei – entre tantas coisas – fraqueza, e se é isso que eu posso carregar deles, o faço com orgulho.

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Um dia desses eu e meu namorado tínhamos uma conversa saudosa no carro, indo pra faculdade, e ele me disse “eu queria muito ter conhecido sua vó”. Foi a coisa mais triste que já ouvi dele.

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A saudade sim é cruel. Não a rotina, a fraqueza, a tristeza. A saudade que não dá pra matar é de longe a coisa que mais me machuca. E mesmo sabendo que tudo acontece quando deve, que a fé está acima de qualquer coisa e que o tempo cura, eu ainda não me conformei. Meu avô não estava na minha formatura da oitava série, no meu aniversário de quinze anos, nem foi me levar pra prestar o vestibular da faculdade. Minha avó não cuidou de mim quando fui operada, não me viu conseguir o primeiro emprego e também nunca conhecerá o meu namorado. Eu não vou comemorar o 66º aniversário dela no domingo, ele não vai estar em outra formatura minha e muitas outras coisas não serão. Só a saudade ainda é, e nada me faz pensar em algo mais cruel que isso.

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Quando pequena minha avó costumava dizer que ela não mentia pra mim e que se eu não acreditasse nela, em quem acreditaria, afinal? Uns bons anos depois, já numa cama de hospital, ela disse que não viveria por muito tempo. Eu chorei, óbvio. Mas ela disse que ficaria tudo bem, depois de bastante tempo e de bastante vida vivida, eu ficaria bem. Se eu não acreditar nela, afinal…

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4 opiniões sobre “– 06/12/2013

  1. raisita, você não sabe o quanto me fez chorar com esse texto.
    carrego comigo a mesma fraqueza, a mesma tristeza. saudade de vó e vô dói mais, porque é natural perdê-los cedo. mas acredite nela, tudo ficará bem

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